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Sobre a autocrítica do PT e o Bem aventurado Ciro.

Atualizado: 15 de mai. de 2022

1- acho que o PT sem sobra de dúvidas precisa fazer autocrítica, mas isso não pode descaracterizar a crítica como ferramenta de tentativa de acesso à verdade imanente da realidade. Assim, não podemos confundir a autocrítica necessária; comprometida com o sentido de verdade; com a autocrítica exigida pelos detratores do PT, que exigem autocrítica como instrumento de disputa e autodesmoralização do partido; 2- Desta maneira, em alguma medida o PT precisa fazer balanço (autocrítica) sobre sua política de alianças, considerando que não poderia ter somente se apoiado na lógica de sustentação institucional de um sistema político carcomido (a resposta à questão é mais difícil do que parece). O Partido dos Trabalhadores precisa considerar sobre os limites das suas iniciativas de governo, que a despeito da coalizão construída e da popularidade do Lula, não conseguiu concretizar suas políticas para além da vontade política dos seus governos (não se tornaram política de Estado). O PT precisa fazer autocrítica sobre não conseguir em seus governos desfazer o estado de insegurança da classe média (sempre presente), a partir de políticas que correspondessem às suas expectativas e desejos. O PT precisa fazer autocrítica sobre algum nível de aparelhamento dos movimentos sociais, sobre o processo grave de burocratização interna, sobre a desautorização das bases partidárias, sobre o esvaziamento do debate interno, sobre a vaidade do Lula e o silenciamento do partido na escolha da Dilma como candidata a Presidente e toda a despolitização e caudilhismo em torno da questão. O PT precisa fazer autocrítica sobre a redução do horizonte de sua democracia interna, sobre o pouco espaço para renovação de quadros no interior do partido... As autocríticas são muitas; 3- No entanto, o que exigem os seus detratores ̶ à esquerda, ao centro e à direita ̶ pelo menos até o momento, é a confissão de culpa sobre todos os males e a autoflagelação autodestrutiva de qualquer intenção de se colocar na disputa política, na disputa de projeto. Trata-se da diferença fundamental entre a crítica filosoficamente justa e a crítica vulgarmente cínica; 4- O PT é cobrado pela autocrítica sobre a corrupção a despeito das falas de autocrítica de seus principais quadros dirigentes, dos diversos dispositivos criados e defendidos pelo partido para combater a corrupção em seus governos (reaparelhamento da PF, autonomia do MPF, lei da Transparência, Lei da Ficha Limpa, aperfeiçoamento da lei sobre delação...); 5- Em outra dimensão, a autocrítica exigida é sobre a maneira que tece sua relação entre o seu projeto de poder e as demais perspectivas políticas e projetos. No que tange a esse viés crítico, o PT é hegemonista e só pensa em seu projeto de poder ( já considerei alguns aspectos sobre esse argumento em outro texto: https://raphaelxavierfd.wixsite.com/sobretudo01/blog/sobre-a-ascens%C3%A3o-do-fascismo-e-o-bolsonarismo-por-raphael-xavier), no entanto, o estranho é que se exige do PT a “responsabilidade” dentro da lógica que abdique da seu projeto. Tudo isso em favor de forças políticas minoritárias e em favor de lideranças menos expressivas, inclusive nas pesquisas, em nome do bem viver da esquerda. O que de fato é um contrassenso no que tange à lógica de forças da política. Considerei também sobre as pesquisas no mesmo texto citado, porém, é importante destacar que parte significativa dos argumentos advêm do que poderíamos chamar de fogo amigo. O cenário pós-Lula e pós-PT é sempre considerado pelo amigos, pero no mucho. Parto do pressuposto que a superação do PT e a coerência de tal exigência só se justificaria nas urnas e nas ruas. O PT é ainda o maior partido da esquerda brasileira e sua superacão não será a priori e muito menos a fórceps. Falta coerência quantitativa nesse tipo de exigência e a questão qualitativa não se encerra imediatamente;

6- O erro do grande quadro Ciro é a partir de 2016 passar a dialogar com o antipetismo sem entender o seu sentido antiesquerda ̶ na verdade, conhecemos seu pragmatismo. Por sua vez, o Ciro não pode se comportar como o menino que é o dono da bola na pelada da rua, que só permite que a bola role se ele for o titular. O Ciro fez uma aposta: bateu sempre que pode no PT e no Lula, se omitiu muitas vezes na defesa do Lula e dos governos petistas, esqueceu que os governos do PT foram fruto de uma coalizão e com isso responsabilizou o PT pela crise (a despeito do papel da mídia, do poder judiciário, dos demais partidos políticos, do Tribunal de Contas...) e agora o PT é também responsável pela sua derrota e pelo fenômeno Bolsonaro. Fora que o erro da sua aposta também é fruto da traição do PT. Creio que seja preciso considerar que não existe aposta sem riscos e nem sempre o insucesso é culpa dos outros, já diriam os ensinamentos de Sun Tzu.

O Ciro de fato é um grande quadro e tomara que seu futuro seja longevo, mas não pode acreditar que a sua condição de liderança é natural (sem a necessidade de construção e convencimento) e não pode desconsiderar a história e no caso, a história do Partido dos Trabalhadores, nos seus aspectos positivos, pois até agora só ressaltou os defeitos. Se ninguém é perfeito, por sua vez, não existe ninguém absolutamente imperfeito, nem o próprio Ciro Gomes e nem o Partido dos Trabalhadores. Quem acredita nisso está dialogando com a ideologia do antipetismo (anti-esquerda), só não sabe ou não admite.


 
 
 

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