Sobre a ascensão do fascismo e o bolsonarismo (por Raphael Xavier)
- Raphael Xavier
- 24 de out. de 2018
- 4 min de leitura
Atualizado: 29 de dez. de 2025
1- Talvez a principal força de atração presente no conjunto de significados produzidos pela candidatura Bolsonaro esteja na sua capacidade de expressar na dimensão política, os valores e crenças que estão no cotidiano e compõem o senso comum da sociedade dentro da sua visão conservadora (preconceituosa). Valores como os da violência como forma e maneira de resolução dos conflitos, machismo, homofobia e racismo constituem o modo de ver a realidade do conservadorismo tupiniquim e isso não é nenhuma novidade. A candidatura do Bolsonaro conseguiu transmutar essa grade de leitura para o plano da política e com isso, diluiu todos esses significados em um conjunto de discursos e ideias permitindo que as pessoas dissimulem os próprios preconceitos, em nome do desejo de mudança. Praticam preconceitos, sem acreditar que são preconceituosas.
Em parte, a incompreensão do fenômeno por parte da esquerda reside na dificuldade de enfrentar que na sociedade não existe somente bons valores; a sociedade não é essencialmente boa; 2- Com isso, ele (Bolsonaro), entrou na dimensão das subjetividades, na dimensão naturalizada e inconsciente de forma que as questões objetivas do seu discurso (neoliberalismo, políticas antipobre e antitrabalho...) e da sua fragilidade como quadro pouco importe, pudessem ficar em segundo plano, pois tangenciou as “verdades” a priori. Permitindo assim, que muitas pessoas atribuírem sentido à realidade e se posicionarem diante dela. Ou seja, grande parte das pessoas de fato sempre acreditaram nesses valores, mas antes não existiam canais para expressá-los politicamente. Porém agora têm; 3- O terceiro aspecto se relaciona com a carnavalização, com o deboche e o perfil político não-convencional de rompantes agressivos e caricatos (também carregados de preconceitos creditados pela sociedade) que permitiram ocupar o sentido de ser um candidato contrário ao sistema, a despeito dos seus 28 anos no parlamento. O carnaval, o deboche e a ironia colocam a ordem em suspensão e assim, em alguma medida, as pessoas reconhecem isso no Bolsonaro (um candidato crítico). A extravagância comportamental foi uma fundamental etapa da construção do personagem e do conjunto da obra. Enéas, Tiririca e Macaco Tião confirmam historicamente a demanda eleitoral e o desejo de negação; 4- Com isso, alguns desafios de imediato estavam colocados para o candidato petista Fernando Haddad: conseguir representar mudança sendo de um partido que corresponde inevitavelmente a ordem desprezada; ser mais que um escolhido do Lula, tendo em vista o trauma da Dilma; ser um candidato além do antipetismo e ter que de imediato confrontar um conjunto de significações que estão para além do campo da razão a partir de um discurso racional; 5- Contraditoriamente, a força do Haddad se localiza nos elementos que contribuíram para fortalecer Jair Bolsonaro ou basearam a crítica ao PT em um primeiro momento: é um quadro com experiência de gestão (do sistema), o que o torna em alguma medida um político "convencional"; detém por trás de si a força do Lula e do PT, que mobilizam ódios, mas também inegavelmente muitas paixões; 6- Neste sentido, é importante comentar as análises que consideraram um erro a candidatura do Haddad e a insistência do Partido dos Trabalhadores em lançar seu candidato. O primeiro ponto que considero essas análises equivocadas é partir do pressuposto das pesquisas que só fizeram falhar ao longo de muitos anos, tratando as pesquisas como verdades absolutas e esquecendo que são apenas projeções passíveis de erros, como também, desconsiderando a notória parcialidade dos institutos de pesquisa. O segundo ponto importante seria ter uma visão voluntarista da política que insiste que o candidato que detinha mais que o dobro das intenções abdicasse em favor do terceiro colocado; além do argumento que beira ao cinismo ao se criminalizar o projeto de hegemonia do PT, tendo em vista que não existe projeto político que não detenha intrinsecamente o desejo de hegemonia. Projeto de poder é sine qua non à pratica da política. Em suma, essa perspectiva de análise desconsidera a dimensão histórica, política, afetiva e subjetiva do Lula e do PT no imaginário social e político brasileiro; lembrando que o Ciro a partir de 2016 dialogou largamente com o discurso em torno do antipetismo, convidando o DEM e Kátia Abreu e isso não significou problemas para muitas mentes; 7- Outro ponto importante é que existe em parcela da esquerda brasileira também um misto de recalque, oportunismo e falta de sensibilidade histórica. Não é à toa que desde a vitória eleitoral do Lula em 2002, correntes da esquerda brasileira desejam e atuam para a construção do cenário pós-PT. A questão não está na defesa incondicional do PT, mas sim , em considerar as vicissitudes do processo político e histórico. Partimos do pressuposto que todas as organizações, movimentos e governos ao longo da história republicana que confrontaram o status quo passaram pela estigmatização e pela possibilidade de proscrição; assim foram: o PCB, o PTB, as Ligas Camponesas, o MST, os governos de Vargas e Jango [...], e agora o PT. A confusão está em não compreender a dimensão histórica do significado do antipetismo, que por extensão, é uma agenda antiesquerda. Trata-se de uma base de análise que desconsidera os russos e acredita ingenuamente que toda rejeição ao PT fosse somente fruto dos seus erros e defeitos, e não fosse ferramenta (antipetismo) da disputa política tecida pelo conservadorismo. O PT é apenas o adversário do momento. Tal linha não enxerga o sentido antiesquerda do processo geral no Brasil e a ascensão da extrema-direita no Brasil e no mundo; 8- Considero que sem o apoio do Lula e do PT no atual cenário, dificilmente seria possível a viabilidade eleitoral de qualquer candidatura oposta ao Bolsonaro, pois faltariam os elementos subjetivos (quase libidinais). Querendo ou não, Lula/PT construíram o seu lastro, seu enraizamento histórico, político e afetivo que permitiu enfrentar com subjetividades o fenômeno subjetivo de ascensão do Bolsonaro. Neste sentido, Marina, Haddad e Ciro seriam apenas bons candidatos. Possivelmente, somente o Lula teria recursos imediatos para enfrentá-lo; para os demais, conforme a história vem mostrando, só caberia correr atrás. Lembrando que o Lula foi impedido de ser candidato e quem tem maior parcela de responsabilidade na construção do quadro são os donos do golpe e não o PT. A autocritica fundamental que esquerda brasileira precisa fazer é sobre o déficit de analise acerca do fenômeno do antipetismo que vai além dos desvios da legenda. Não se pode desligar o antipetismo do fascismo contemporâneo. Compreender o fenômeno é parte do aprendizado que a esquerda precisa obter para nas disputas futuras não confundir amigos com inimigos e assim sucessivamente. A dica fica para todos e todas, sobretudo ao PT que em muitos momentos não se incomodou em dormir com o inimigo.



Excelente análise de conjuntura!
Texto irretocável. Obrigada por isso. Só me resta compartilhar! Grande abraço!