Precisamos ir além do Bolsonaro; temos que fazer a batalha das ideias e derrotar o neoliberalismo.
- Raphael Xavier
- 19 de mar. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 20 de mar. de 2020
Ontem, parcela da sociedade em diversos bairros de classe média, através de panelaços, manisfestou seu descontentamento com o atual momento do governo Bolsonaro. Os panelaços que antes eram mobilizados contra o PT, pela primeira vez se manifestaram com alguma dimensão contra a visão conservadora que predominou nos últimos anos. No entanto, creio que o fato em si não signifique de imediato algo que possamos nos empolgar sem nenhum tipo de reserva; justamente pelo fato de ser um ato que não manisfesta necessariamente a média de opinião da maioria da população – vide a inexistente adesão nos bairros populares - , seja também pelo fato de que provavelmente reflita a recuperação da autoestima de setores progressistas da classe média; após anos de constrangimentos provocados pela virulência da classe média tradicional; acompanhados pelos arrependidos de todas as horas, de todos os momentos, devido ao senso comum de negação da política (os isentões!). Isso por si só não constitui maioria social e política, embora já demonstre o início (provável) da saída do campo progressista do isolamento e nos traga por ora algum alento.
Por que defendo que o discurso da esquerda deva ir para além do Bolsonaro? Não significa nenhum tipo de capitulação, mas não podemos esquecer o conjunto de ideias que referendaram o “mito” a chegar à presidência e que permitiram a formação do arco de alianças que produziram as condições para a sua chegada ao poder. Não podemos esquecer que Bolsonaro se viu obrigado à aderir aos valores neoliberais como parte das propostas que galvanizaram o seu arranjo político, que por sua vez, compôs sua agenda de governo e discurso.
Outro aspecto que não podemos esquecer, é que a crença absoluta no mercado, nos seus méritos absolutos predominou no debate público nos últimos anos ̶ sendo defendido inclusive pelos pobres e muitos da classe trabalhadora ̶ e que tudo que fosse associado ao Estado era visto como ruim ou obsoleto. Prevaleceu a ideia que por conta da corrupção (real ou politicamente instrumentalizada), que tudo que envolvesse o Estado tenderia ao desvio e ao desperdício do dinheiro público. Nosso ponto de partida precisa entender que naquele contexto perdemos a batalha das ideias, mas não a guerra.
Por que precisamos ir além do Bolsonaro? Pelo simples fato que ele não pode servir de bode expiatório, permitindo esconder o fato da completa incapacidade do modelo neoliberal como forma de organização social e econômica de responder a crise do Covid-19 (Coronavírus). A esquerda pode até ridicularizar o uso da máscara do Bolsonaro, por exemplo ̶ difícil não fazer ̶ , mas não pode perder a oportunidade de confrontar a falência e a incapacidade do neoliberalismo de dar respostas a qualquer tipo de crise social. Essa ideia não é minha, ela foi defendida nesta semana pelo filósofo esloveno Slavoj Zizek; ver o artigo do blog Outras Palavras: https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/zizek-ve-o-poder-subversivo-do-coronavirus/..
Temos que explicar e conversar com as pessoas sobre o quão importante está sendo o Sistema Único de Saúde (SUS) para o enfrentamento do coronavírus, no seu caráter público e descentralizado; temos que reafirmar o fato de ser uma política pública e estar de acordo com uma visão de Estado e sociedade, na qual, o cidadão é tido como portador de direitos e não como potencial consumidor. Não podemos nos furtar de desmoralizar o neoliberalismo a partir do exercício do raciocínio contrário da realidade colocada com as pessoas, permitindo que considerem a possibilidade de que caso hoje vigesse um sistema de saúde privado, a realidade da maioria da população em nosso país seria outra. Não podemos deixar de debater o resultado da Reforma Trabalhista, da restruturação produtiva neoliberal que aumentou a informalidade e a precarização do trabalhador, cinicamente tornando em empreendedor de si mesmo, sem capital e que agora está abandonado, tanto pelo mercado como Estado.
A pandemia do Coronavírus tornou a farsa do discuso neoliberal evidente e mais uma vez é a rede de solidariedade no âmbito da sociedade civil e o papel do Estado que oferecem respostas. O Deus Mercado como ente nada tem a dizer; pelo contrário, já começa a exigir o papel do Estado intervencionista no seu socorro e a socialização dos custos da consequente crise econômica como resposta. A crise inevitavelmente é política e cabe à esquerda encontrar as soluções e respostas. Cabe à esquerda fazer a devida batalha das ideias.
Raphael Xavier
Professor de História da Rede Estadual do Rio de Janeiro;
Professor e Coordenador do Pré-Universitário Popular Milton Santos;
Doutorando em História Social pelo Programa de Pós-Graduação em História da UFF.




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