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Não se iludam; o pronunciamento do Bolsonaro não foi “loucura”, foi uma visão de mundo.

Atualizado: 25 de mar. de 2020

Ontem, no horário nobre o presidente da república, Jair Bolsonaro fez um discurso que surpreendeu até mesmo os incautos. No entanto, não podemos interpretar os seus argumentos como produtos de uma loucura ou insanidade, mas sim, precisamos observar que eles refletem uma visão de sociedade que é resultado da aliança que o levou ao poder. Bolsonaro se elegeu a partir de mentiras como kit gay, fake news no whatsapp, da audiência de um autoproclamado filósofo, do advento do terraplanismo; dentre outros motivos... O atual presidente venceu a partir de valores antirracionais em associação e aliança com o neoliberalismo do mercado que se expressa de maneira mais evidente no ministro da Fazenda Paulo Guedes.

O que assistimos ontem não foi loucura; foi a manifestação da visão de mundo dessa aliança, que despreza o saber científico e exercícios racionais; pois é anti-iluminista; como também, o total compromisso com os índices de lucratividade do mercado, mesmo que no seu bojo esteja o completo desprezo à vida. Ironicamente, ontem pela manhã, tive acesso a uma entrevista do dono da rede de restaurantes Madero, Junior Durski, sócio do Luciano Hulk, na qual, defendia a mesma concepção, em que para se salvar a economia no atual modelo, vale o risco de perder algumas vidas (deixarei ao final o link da entrevista). Estranha coincidência na fala do presidente!

Assim, temos a recorrência de uma postura contraditória do presidente que ora fala em seguir a orientação técnica do ministro da saúde, ora nega tudo que foi orientado na sua prática ̶ acompanhado sempre da “mitagem”, do deboche que sempre caracterizaram a construção do seu personagem ̶ , por outro lado, existe uma defesa ainda discreta, mas já presente, que não existem alternativas para salvar a economia; vide os 6000 ou 7000 que terão que morrer na fala do Durski para salvar a economia. O neoliberalismo repete sua farsa no discurso da falta de alternativas. Por isso, não nos iludamos!! Não foi loucura, foi a evidência da aliança entre a elite neoliberal brasileira revestida do seu traço escravocrata sempre indiferente aos pobres, em aliança com o antirracionalismo de Olavo de Carvalho e os seus seguidores terraplanistas.

Porém, exitem alternativas e é aí que entra a visão neoliberal, pois quer por toda forma e meio garantir a proteção da economia (de acordo com sua visão econômica), sem que se tenha que aumentar os gastos públicos, sobretudo com os pobres e os trabalhadores. Esse é o pano de fundo; o Estado brasileiro não pode intervir mesmo neste momento de crise na economia (precisa respeitar a mão invisível do mercado, mesmo que morram pessoas; na sua maioria pobres, e manter seu fundo público como garantidor dos riscos do jogo do mercado), precisa seguir a linha contrária da grande maioria dos países do mundo que aumentaram os gastos públicos para combater a situação de calamidade em todas as suas dimensões (deixarei também um link com algumas reportagens sobre o assunto no final).

A Medida Provisória dos quatro meses sem salários para o trabalhador (MP nº927) não foi mero acaso ou engano, foi mais uma evidência do que está em jogo para eles.

Tudo que Bolsonaro e Guedes não querem é aumentar os gastos públicos como forma de enfrentamento à crise, sobretudo com os pobres. O mundo está fazendo isso e tecnologia social e dispositivos para isso a Brasil detém, vide o Cadastro Único, Bolsa Família, todo o conhecimento presente no corpo técnico da Caixa Econômica Federal, a nossa trajetória recente no combate à desigualdade, geração de emprego e renda e assim por diante. Falta a velha, mas sempre inovadora vontade política.

Trabalhadores do Brasil, uni-vos, mesmo que mantendo a distância! . .



Medidas econômicas no mundo: https://jornalggn.com.br/economia-de-guerra/

Obs: essas informações poderão ser buscadas em outros sítios, sugeri o GGN, pois eles reuniram um conjunto de matérias sobre o tema no mesmo lugar e creio que pode facilitar a pesquisa


Raphael Xavier

Professor de História da Rede Estadual do Rio de Janeiro;

Professor e Coordenador do Pré-Universitário Popular Milton Santos;

Doutorando em História Social pelo Programa de Pós-Graduação em História da UFF.

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