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Entre o Lugar de Fala e a perversão da Karol Conka: o que podemos tirar desse BBB?

Atualizado: 10 de jun. de 2025

1-De início peço perdão, pois ao produzir o texto anterior, Cabe ao intelectual trazer o desconforto do mundo, tinha como intenção dividir o argumento em três textos, o primeiro localizando a discussão (como foi feito), o segundo dando conta de alguns aspectos teóricos sobre o tema das identidades e no terceiro, farei em tom conclusivo enfatizando a dimensão política em torno da discussão; no entanto, isso não foi avisado previamente! Neste sentido, agradeço também à crítica recebida por parte de alguns amigos e amigas que leram o texto e fizeram suas sugestões, indicando as falhas e limites;

2- Indo direto ao ponto, não estou escrevendo o texto por conta do BBB 21, pois já havia iniciado a discussão no texto anterior antes do programa de entretenimento pautar a nossa sociedade (rsrsrrsrs!), mas não posso negar que tudo que vem ocorrendo favoreceu o debate, clarificando a questão a partir dos próprios acontecimentos da casa. De imediato previno que não assisto o programa e nem irei me prender além do necessário nas polêmicas especificamente, no entanto, toda essa situação me permite recuperar alguns conceitos e categorias que são mobilizados pelos participantes, o que também permite fazermos um dialogo menos abstrato sobre os pontos teóricos da perspectiva e dos movimentos ligados à temática das identidades;

2.1- Entretanto, ademais não podemos confundir algumas coisas; primeiro, que toda a semântica do campo de discussão dito identitário ou do movimento negro em si, estaria refletida na conduta perversa de alguns participantes do programa; no caso, seria produzir uma ilusão ou puramente oportunismo cínico, pois, pessoas generosas e perversas existem em todos os lugares e sua vigência não se associa necessariamente a qualquer teoria. Outro aspecto interessante é a reação de alguns observadores em sentenciar à morte a categoria lugar de fala, mas isso retomarei mais para frente;

3- Tenho achado válido o que vem ocorrendo pelo fato de tornar evidente algumas tensões que atravessam esse campo discursivo, no entanto, não concordo com a crítica de primeira hora feita por parte da esquerda de associar os excessos vistos a uma crise inerente ao campo teórico e da mesma forma, generalizar e reduzir todas as questões do mesmo à visão liberal centrada no individualismo. A validade do que está acontecendo para mim não reside nesses pontos, mas sim, em uma dimensão de natureza epistemológica (natureza do conhecimento humano), tendo em vista os abusos nas apropriações de determinados argumentos e o exercício de poder que se reflete em algumas práticas, mas que de fato são passíveis de ocorrer em toda forma de saber; para mim talvez o legado de toda a polêmica esteja nisso;

4 – As novas identidades e seus movimentos são resultado de um conjunto de processos de mudança da modernidade tardia que a partir de suas constantes transformações provocaram a emergência de outras áreas de conflito e com isso, outros grupos sociais identificados com essas questões. Por sua vez, essas alterações colocaram em crise formas anteriores de identificação, ou seja, as identidades tradicionais (HALL, 2011). Marx e Engels já preveniam em seu manifesto que esse constante mudar marca o advento da modernidade e que tudo que é sólido se desmancha no ar em nosso tempo (MARX; ENGEL, 2010);

4.1- Um conjunto de fatores contribuíram para a crise e a emergência de novas identidades, em resumo esses fatores são: transformações em torno da interconexão do mundo defendida por Antony Giddrns (2002) que produziram fluxos de mudanças sociais em todos os espaços da terra; a fragmentação e as rupturas internas com toda e qualquer condição preexistente defendida por David Harvey (1989), os acontecimentos históricos que colocaram em xeque a polarização ideológica que atravessou o século XX entre capitalismo e comunismo e isso sem falar nas mudanças estruturais no mundo da produção que redefiniram o mundo do trabalho, alterando sua fisionomia (SENNETT, 2014);

As identidades culturais marcam a experiência do nosso tempo e não sei se é possível no lidar com a questão, reivindicar a transcendência dessas identidades no sentido de uma luta totalizante ou apontar seu déficit em torno de uma ausência de compromisso com a luta imediatamente contrária ao capitalismo, indicando sua falta de vínculos com a classe trabalhadora. Considero não ser simples, pois para além de todos os fatores de transformação citados, mais um fator completa o quadro, que se reflete na grave crise que as tradições de esquerda vivenciam neste início de século e ciente disso, viabilizar as pontes não é uma tarefa fácil. As associações entre essas lutas, embora desejável, não são estruturalmente necessárias, o que não deixa de ser um certo impasse para uma visão mais tradicional da esquerda. O fato de determinadas lutas identitárias serem absorvidas mais facilmente pela estrutura capitalista não tira a legitimidade das suas demandas, mas também só mostra a capacidade de adaptação do capitalismo, o que não desfaz a legitimidade da questão em si;

4.2 - Não estou dizendo com isso que não vejo problemas na ausência de centralidade, mas acho que a questão não é simples, pois não basta exigir moralmente centralidade em uma conjuntura estruturalmente marcada pela própria ausência de centros (LACLAU; MOUFFE, 2015);

5- Porém, preciso voltar ao foco, pois não tenho como intenção fazer balanço contrário ou favorável sobre as questões em torno do campo identitário. Na minha visão, a validade de toda situação se dá no fato de podermos problematizar o campo teórico por um outro viés, no sentido de entender seus limites no que tange as suas relações de poder em torno dos seus saberes, naquilo que cabe a sua apropriação no conjunto das relações sociais no cotidiano;

6 – Partindo do dado que a identificação (identidades) se estabelece a partir de uma lógica diferencial, na qual sistemas de classificação demarcam diferenças simbólicas e sociais (WOODWARD, 2014), o campo de imediato coloca pela sua própria lógica alguns desafios, pois o sentido fundamental de articulação das tradições das esquerdas foi a busca da similaridade, realmente existente ou projetada no tempo futuro (a partir da reforma ou revolução). A dinâmica se estabelecia em tese na busca da igualdade, a partir da observação do comum que transcende a realidade individual em si contra uma forma de poder político e economicamente estruturado. Como fazer as pontes de solidariedade e de transcendência entre identidades cada vez mais fragmentadas, flexíveis estruturalmente?

6.1- A interseccionalidade é uma possibilidade, mas sua efetivação depende dos conflitos e interesses definidos por cada discurso dominante em cada uma das respectivas identidades. Por exemplo, uma mulher trans, negra, e periférica reúne muitas identidades, no entanto, isso não significa que ela será imediatamente expressão de todas elas pelo fato de reuni-las em uma única pessoa. O que por seu turno demonstra o caráter precário e mutável das identidades de acordo com lugar social que é ocupado em um dado momento, sendo cada uma delas enfatizada de acordo com a situação; o que quero dizer é que não necessariamente elas estabelecem uma relação de continuidade e complementaridade. Em um outro sentido, reivindicar moralmente uma necessidade de identificação final e superior com a luta de classes é até necessário, mas está para além da pura vontade, pois não se trata de uma associação simples e novamente não existe uma necessária relação de complementaridade. Conforme disse anteriormente, a emergência dessas demandas (identidades) refletem o espírito do nosso tempo, se relacionando também com questões estruturais da modernidade tardia. A questão é que a lógica das identidades se baseia fundamentalmente na identificação tanto social como simbólica a partir das diferenças (em contraposição ao objeto não similar, excluindo-o); entretanto, em sua trajetória histórica, as tradições de esquerda se desenvolveram em um sentido oposto, o que cria um paradoxo difícil de se resolver de forma simples. Assim, por seu turno, fica a questão: como produzir uma totalidade a partir da transcendência em uma condição radicalmente fragmentada na realidade das múltiplas identidades tendo em vista que identidade e diferença andam lado a lado de maneira interdependentes?

7- Outro ponto interessante que emergiu a partir da discussão suscitada pelo programa, é que não acho que está em jogo o fim da categoria lugar de fala e nem acho que temos que celebrar a desmoralização das temáticas das identidades como alguns observadores, sobretudo de esquerda vêm fazendo. Acredito que o mérito de tudo que está ocorrendo é desnudar a condição desse campo discursivo como isento de contradições, limites e violências, principalmente nas dimensões de apropriação e uso. Não estou dizendo isso da teoria em si, mas das apropriações praticadas por parte dos ativistas. Não estou também julgando o campo teórico e político, nem fazendo juízo sobre a legitimidade dos grupos sociais que reivindicam essas identidades, mas sim, estou ressaltando que muitos dos ativistas ao se apropriarem dos seus argumentos, sim, exercitam poder, sim, reproduzem relações de silenciamento e violência, e sim, também como tudo que é humano possuem contradições. Toda a correta crítica feita pelos pós-modernos à ordem do discurso da modernidade nas dimensões da apropriação e dos usos também se converteram em recursos de poder, passíveis de excessos e abusos, o que evidencia também outro paradoxo das relações e da natureza do conhecimento e do saber do ocidente. Essencialismos, profanações e sacralizações são produzidas no cotidiano em nome do combate às opressões, em que a identidade em questão é essencializada no sentido positivo (tornando-se sacra), desistoricizada e o ente oposto; excluído no próprio processo de afirmação da identidade; também é essencializado, mas no sentido oposto (se torna o signo do que é profano, sendo assim profanável). Vemos isso no exemplo que aconteceu na casa, quando um dos personagens tentou produzir explicitamente uma disputa entre negros e brancos na casa, essencializando os entes. Lembrando, não estou me pondo contra no sentido radical a qualquer perspectiva do campo identitário, mas salta aos olhos algumas dessas condutas no cotidiano; o meu texto anterior foi consequência de uma situação parecida;

8 – Sendo assim, é preciso separar as coisas, pois lugar de fala, naquilo que concerne à categoria como instrumento de análise não corresponde imediatamente a qualquer tipo de abuso na forma de uso e continua sendo fundamental para o processo de desconstrução do discurso dominante (colonial) (RIBEIRO, 2017); fora que não há nada de liberal na sua intenção instrumental e teórica, conforme em alguns momentos acusa a ortodoxia marxista. A filósofa Djamila Ribeiro considera em seu livro O que é lugar de fala? (2017), a categoria como uma chave fundamental para compreensão da realidade de grupos sociais que tiveram seus discursos, suas formas de vida silenciados pelo discurso dominante da modernidade e pelo seu sentido de universalidade eurocêntrico. Na maneira que propõe a autora, o uso da categoria não é válido para apreensão da dimensão individualizada da realidade, mas sim, para possibilitar a captura de realidades de grupos sociais distintos que não são observadas nas formas dominantes de discurso e sim, neste sentido concordo com ela. Trata-se de uma maneira de enxergar a realidade a partir de um ponto de vista pós-colonial, questionando assim a ideia dominante de universalidade;

8.1- Por outro lado, de fato, o BBB 21 mostra isso, ao demonstrar que existe uma grande dificuldade quando a categoria é banalizada nas falas e conflitos do cotidiano, evidenciando formas equivocadas de uso e verdadeiros abusos na apropriação direta ou indireta do lugar de fala. Porém, isso não tira por si só a validade da teoria, mesmo porque, não será a primeira e nem a última vez que isso ocorreu e nem o marxismo esteve isento disso;

9- Por fim, um último comentário que vale para todo e qualquer campo teórico discursivo, é que na dimensão das relações de poder e do seu uso político, é inevitável algum nível de exercício de poder e dinâmica de violência, assim, é inevitável na transição (apropriação) da teoria para a luta política em torno do poder algum nível de violência; quando a teoria se desdobra em prática política, a política expressa a continuação da guerra por outros meios, como assim afirmou o filósofo Michel Foucault (FOUCAULT, 2005). Por isso, a meu ver, para todos que lutam por liberdade e justiça a crítica e a autocrítica deve ser parte inerente ao percurso. Quando essa possibilidade não existe, só existe poder e autoridade.

Outra aspecto importante é que a partir do entendimento que a crítica é uma ferramenta necessária e fundamental para a apreensão da realidade imanente, não existe fenômeno social que não seja passível de crítica e isso também condiz a qualquer teoria aqui observada. O mérito do BBB 21, em minha opinião, está em demonstrar os limites de algumas formas de uso dessas teorias, mas não sobre o seu sentido e seus conteúdos, e mesmo sabendo dos seus limites, o campo teórico e seus movimentos detêm legitimidade, pois nenhuma teoria em si justifica a perversão das pessoas e isso não pode ser confundido, misturando-se alhos com bugalhos.


Referências:

GIDDENS, Anthony. Modernidade e Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

HARVEY, David. Condição Pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens das mudanças culturais. São Paulo: Edições Loyola. 1989.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2011.

MARX, Kall; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010.

MOUFFE, Chantal; LACLAU, Ernesto. Hegemonia e Estratégia Socialista: por uma política democrática radical. São Paulo: Editora Contrassensos, 2015.

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017.

SENNETT, Richard. A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 2014.

WOODWARD, Kathryn, Identidade e Diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: Tomas Tadeu da Silva. Identidade e Diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Editora Vozes, 2014.


Raphael Xavier

Professor de História da Rede Estadual do Rio de Janeiro;

Professor e Coordenador do Pré-Universitário Popular Milton Santos;

Doutorando em História Social pelo Programa de Pós-Graduação em História da UFF.



 
 
 

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