"Cabe ao intelectual trazer à tona o Desconforto do Mundo." (Milton Santos)
- Raphael Xavier
- 7 de jan. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 8 de jan. de 2021
Certa vez vez um importante cronista conservador proferiu o seguinte enunciado: “Toda unanimidade é burra! Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.”

Não estou escrevendo o que escrevo para me colocar como medida, nem para ser o diferentão do momento, mas para pura e simplesmente manifestar o meu desconforto com certos consensos, sobretudo na média do pensamento das esquerdas. Em determinado momento, uma determinada ideia ganha força e autoridade, de forma que se torna uma verdade a priori, a despeito dos fatos, da sua insuficiência em explicar os acontecimentos da realidade, de gerar efeitos práticos e aplicáveis. O que me gera o desconforto é que tal conduta não está em desacordo com os pressupostos de uma postura/conduta religiosa, na qual sacraliza determinado ponto de vista, tornando herege (profano) toda e qualquer pessoa/pensamento que venha discordar das respectivas "verdades".
Não estou negando que seja possível que eu mesmo não estabeleça a mesma relação com meus valores e crenças, no entanto, tenho certeza que não estou entre aqueles que deseja vencer o jogo de WO. Acredito que tal conduta não coadune com uma postura verdadeiramente de esquerda no seu sentido filosófico, que entende a critica como ferramenta essencial para interpretar os fenômenos da realidade e o embate de ideias como método fundamental, necessário e intransponível.
Para o pensamento de esquerda, seja no campo intelectual ou não, a meu ver, não deveria haver verdades inquestionáveis. Tal conduta corresponde mais ao desejo de poder do que qualquer coisa; que se desdobra inclusive de forma conservadora, para não falar também em autoritária. É inerente às Esquerdas e à tradição da esquerda o desconforto; nas palavras do Marx, o estranhamento; ante a realidade. Ainda mais no âmbito do pensamento!
Sei que pode soar de forma ingênua tal intenção, justamente pelo fato de não gastar letras e palavras discorrendo sobre as relações de poder que atravessam os sistemas de pensamento, ou dizendo de outra maneira, as relações de poder e saber. No entanto, acho que devo manifestar o meu desconforto diante da situação, mesmo que sirva apenas para mim tal questão e creio também que outros, melhores inclusive do que eu, já fizeram a análise de tais relações.
Não sou antinada, e muito menos a priori favorável a tudo, muito pelo contrário. A vida já me deu experiência suficiente para saber que seguro morre de velho, que o diabo mora no detalhe e que sonhar — e desconfiar — não custa nada; ainda mais no debate de ideias que nunca esteve dissociado da luta política.
Esse texto é um breve desabafo em derredor de conflitos necessários que se dão no cotidiano sobre o pensamento dominante atualmente na esquerda, no qual a unanimidade e os consensos do momento buscam gerar muitas vezes a interdição de qualquer divergência ou discussão, como se fosse pecado discordar. Por ora, a moda, o dogma, a verdade está em ser identitário e defender o identitarismo, que por princípio não sou contra, mas também não acho que seja o Santo Graal do nosso tempo. Se é que já existiu um Santo Graal em algum momento na dimensão do pensamento. Sempre penso sobre os modismos intelectuais e suas vulgarizações nas discussões correntes, que, se a Física entende a realidade como relativa, por que o pensamento no campo das humanidades tem que se encerrar em volta de“verdades absolutas”? Só vejo relações de poder.
Raphael Xavier
Professor de História da Rede Estadual do Rio de Janeiro;
Professor e Coordenador do Pré-Universitário Popular Milton Santos;
Doutorando em História Social pelo Programa de Pós-Graduação em História da UFF.



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